Fábulas de LA FONTAINE
Século XVII

''O LEÃO E O RATO''
''Saiu da toca aturdido        
Daminho pequeno rato,
E foi cair insensato
Entre as garras do leão.
Eis o monarca das feras
Lhe concedeu liberdade,
Ou por dele piedade,
Ou por não ter fome então.
Mas esta beneficiência
Foi bem paga, e quem diria
Que o rei das feras teria
Dum vil rato precisão !
Pois q'uma vez, indo entrando
Por uma selva frondosa,
Caiu em rede enganosa,
Sem conhecer a traição.
Rugidos, esforços, tudo
Balda, sem poder fugir-lhe;
Mas vem o rato acudir-lhe
E entra a roer-lhe a prisão.
Rompe com seus finos dentes
Primeira e segunda malha;
E tanto depois trabalha,
Que as mais também rotas são.
O seu benfeitor liberta,
Numa dívida pagando,
E assim a gente ensinando
De ser grato a obrigação.
Também mostra aos insofridos,
Que o trabalho com paciência
Faz mais que a força, a imprudência
Dos qu'em fúria sempre estão.''
''A RAPOSA E AS UVAS''
''Raposa matreira
Foi-se pôr-se debaixo
D'erguida parreira.
Cos olhos num cacho
Das uvas mais belas,
Contando com elas;
Armou-lhes três pulos,
Porém autos nulos,
Que não lhes chegou:
De novo saltou,
Mas teve igual sorte;
Buscando outro norte,
Num ar de desdém,
Torcendo o nariz,
Com gestos de quem
Por más não as quis,
Foi pernas metendo
Com lépido passo,
E disse entendendo,
Qu'as outras a ouviam:
Estão em agraço,
Nem cães as comiam.
Há muitos humanos
Que seguem tais planos,
Por coisas se empenham
Que sôfregos querem,
E delas desdenham
Se não lhas conferem.

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