CHAKIB JABÔR
 A paixão acima de tudo...


entrevista na ABAF em novembro de 2000

''Toda a fotografia é uma forma de expressão válida, seja ela qual for.
Não importa se a mensagem implícita é de arte ou não.
Eu gosto de sair na foto de retrato sempre rindo...''
(Chakib Jabôr).
 

Texto ...  Nádia Raupp Meucci
Novembro - 2000 - Rio de Janeiro

Existem pessoas que não têm a pretensão de ''ser''...gostam de viver e amam o que fazem. Não têm medo. Nem receio. Vão em frente. Sofrer ou não sofrer....não vem ao caso....VIVER, sim....SORRIR, sim.

Chakib Jabôr é assim. Sócio número 1 da ABAF - Associação Brasileira de Arte Fotografia e seu Presidente Honorário, Chakib Jabôr vive com sabor e dá valor. Dá valor a tudo. Adora a profissão - é dentista e trabalha até hoje - e tem paixão pela fotografia. São 70 anos de fotografia e 93 anos de vida, ''feitos'' como ele diz. Em 13 de outubro próximo, serão 94.É descomplicado, sorridente e sempre disposto. Sua mente é excepcionalmente clara e possui uma atualidade inenarrável. Suas idéias são simples. Suas palavras são objetivas e diretas. Jamais perde a gentileza e o sorriso. Aliás, diz que só gosta de sair em ''fotos de retrato, sorrindo''. Ao contrário de Henri Cartier-Bresson  www.fotonadia.art.br/areadeacesso/bresson/   contemporâneo seu, apesar da distância, não se enclausura,''vive na rua'', como disse sua esposa ao telefone. ''De manhã, eu trabalho das 8 ao meio-dia e de tarde, ninguém me pega'', diz Jabôr. Gosta de um chopp e vinho tinto. Mas bem pouquinho por dia. Esta é a fórmula. Não fuma e de vez em quando, caminha de Copacabana, onde fica seu consultório, até Ipanema, onde mora. Fotografa até hoje. Faz 2 cópias iguais em preto e branco. Uma, ele deixa assim e a outra, pinta com tinta à óleo, como seu pai o ensinou na época que não existia filme colorido. Faz isto até hoje. Entretanto, acredita na fotografia colorida. ''Tem lugar para as duas.'' Acredita também, que a fotografia digital jamais substituirá a tradicional. Para ele, a tradicional tem mais valor porque existe o negativo que é a prova do autor.

Chakib Jabôr nasceu em Campos e veio para o Rio com apenas 5 anos de idade. Seu pai libanês, também dentista e amante da fotografia, trazia na mão uma máquina fotográfica de fole. Somente Chakib, dos 9 filhos, herdou do pai a profissão e a paixão pela fotografia. Já foi músico, fotógrafo profissional e depois de formado em Odontologia, continuou na fotografia, 'amadoristicamente', como ele diz. Foram 30 exposições fotográficas. A última, foi em maio passado, no Clube Monte Líbano. É muito requisitado nas áreas da Odontologia e da Fotografia. Dedicou-se 50 anos à ABAF, que tem sua história diretamente associada a de seu sócio-fundador nº1.

Há 50 anos atrás, um grupo de moços cariocas viajava de barca semanalmente do Rio para Niterói, a fim de discutir fotografia na Associação Fluminense de Fotografia. Mas o percurso era sacrificante e eles chegaram à conclusão, em uma daquelas idas e vindas, ser absurda a falta de uma associação na então Capital da República. Imediatamente trataram de fundar uma. Organizaram as idéias e registraram o Estatuto daquela que logo seria a Associação Brasileira de Arte Fotográfica, para os amantes da fotografia. Alugaram uma pequena sala no centro do Rio e assim nasceu a ABAF, da vontade de alguns moços cariocas sócios da Associação Fluminense, em continuar a discutir e trocar idéias sobre fotografia, sem ter que sair do Rio para isso. O início foi muito difícil, como todos os inícios em todos os lugares. Mas havia muita disposição e muita vontade de todos. A nova Associação não tinha absolutamente nada. Prontamente, Chakib Jabôr, dispôs-se a ministrar o primeiro Curso Básico de Fotografia. Cada um dos sócios comprou uma cadeira e montaram um pequeno laboratório para as aulas. Organizou-se a diretoria e a associação teve seu primeiro curso, seus primeiros alunos e seus primeiros novos sócios. A nova entidade cresceu rapidamente, por causa dos cursos. Com eles, entrava dinheiro e novos sócios vinham logo após, se associar. E crescia. Os cursos básicos para principiantes foram sendo sistematizados. Muitos queriam aprender fotografia. Cursos avançados foram surgindo para atender a demanda que aumentava. E o dinheiro entrando. Rapidamente, compraram sua própria sala, também no centro, como a primeira. Para Jabôr, um clube ou uma associação sem dinheiro, acabam fechando.  O "dinheiro é a chave de tudo", para sobreviver. E os cursos são fundamentais para que o dinheiro apareça. Ele foi diretor durante 9 anos, deixando depois o lugar para os mais moços, como ele diz. Mas nunca se afastou da ABAF. Dedicou-se durante todos estes 50 anos. Diz que uma Associação não pode existir somente para ''fazer fotografia''. Para ela sobreviver deve ser criado o ambiente social, com ''pretextos'' para reunir amadores e profissionais. Estes pretextos são concursos mensais, leilões de parede, como existe na ABAF atualmente, além dos cursos. Nos concursos fotográficos mensais, existe a parede dos principiantes e a dos avançados e veteranos. Isto estimula a todos. A concorrência estimula a reunião social. O convívio em torno da fotografia é fundamental para a sua evolução. Não adianta estudar, aprender e se isolar. É preciso este ambiente, para cada um mostrar seu trabalho. Assim, diz Jabôr, é que a fotografia evolui. E completa: -'' os mais velhos devem dar o lugar para os mais moços aprenderem a fazer.''

Na época da Segunda Guerra Mundial, as máquinas importadas eram raras. Existiam poucos filmes, apesar de não terem desaparecido completamente. Sempre havia algum. Mas muitos fotógrafos e amadores ainda usavam as chapas de vidro emulsionadas. Conta Jabôr, que usou muita chapa de vidro e muito negativo 13x18 para fazer casamentos com sua Rolleiflex. Ainda não existiam os filmes 6x9 e 6x6 em rolo, somente 9x12 que custou a desaparecer. Mas diz que a versatilidade das máquinas 35 mm é insuperável e indiscutível. Naquela época a Leica já era famosa . Até que as máquinas japonesas entraram no mercado com valentia. Ele diz também que a Nikon é a grande concorrente da Leica e que o filme colorido foi a grande invenção. 

O declínio do movimento clubista, de uma forma geral, aconteceu por falta de gente jovem e por falta de educação sobre fotografia, que é a base de tudo. Sem os cursos, não aparecem alunos e sem eles, não existem novos associados. Sem novos sócios, não existe dinheiro. E sem dinheiro, os clubes fecham. As diretorias e os sócios antigos vão ficando velhos, recolhendo-se à própria idade. Os jovens são necessários para que o processo continue. E os veteranos devem continuar atuantes e dedicados na transferência de experiência e conteúdo. Este processo deve ser dinâmico e permanente, para que a associação não morra. Por isso a ABAF continua viva. Jabôr acredita piamente que isto aconteceu com vários clubes e associações. Ele conta que na década de 50, existia o Fotoclube Brasileiro no Rio, que era um pequeno clube muito fechado, que não progrediu por causa destes erros. Envelheceu e ficou enclausurado. É preciso, portanto, transmitir e transferir o que se aprende para quem se interessa. ''De que adianta guardar tudo o que aprendi?'' Completa dizendo que a dedicação isolada do indivíduo, impede que ele e outros progridam.

Ele acha que todos os gêneros de fotografia são importantes e igualmente válidos. Uns, têm mensagem de arte, outros, são jornalísticas... outras, documentais....Aquela foto que não sabemos fazer bem, devemos enviar para que sabe fazer melhor. Como em qualquer profissão, não podemos ser especializados em tudo. E não importa também a marca da máquina que o fotógrafo usa, pois ela é somente sua ferramenta auxiliar, assim como os pinçéis e a tinta são para o pintor. Um fotógrafo olha através de qualquer objetiva e um pintor pinta com qualquer material em qualquer suporte. Repete várias vezes que todos os tipos de fotografia são igualmente válidos, pois são formas diferentes de ver e de sentir. Na ABAF, existem inúmeros sócios que atuam na área jornalística e que se associaram para desenvolver um trabalho na arte fotográfica, diferente do que fazem profissionalmente no dia-a-dia, para concorrer nos concursos mensais da associação. ''Isto faz um clube viver.''

Antigamente a grande preocupação era o Retrato. Todos faziam fotografia de retrato. Jabôr começou fazendo o retrato. Depois a fotografia foi se difundindo...paisagem, natureza morta, arquitetura, jornalismo....

''Toda a fotografia é uma forma de expressão válida, seja ela qual for.
Não importa se a mensagem implícita é de arte ou não.
Eu gosto de sair na foto de retrato sempre rindo...''
(Chakib Jabôr).


Este é Chakib Jabôr...como ele pensa....
e assim nasceu a ABAF ...Associação Brasileira de Arte Fotográfica.

Nádia Raupp Meucci
editora/documentalista/fotógrafa
www.fotonadia.art.br


...bebendo um choppindo na ABAF, depois da entrevista.